sábado, 8 de janeiro de 2011

Detesto, Mas Venero

Detesto a falta de conexão das pessoas com as pessoas, mas venero olhar pessoas como pessoas. Detesto não compreender o incompreenssível, mas venero a fragilidade do mundo plausível. Detesto a patifaria reminiscente do político, mas venero o reincidente espancamento crítico. Detesto conjugar critérios da vida alheia, mas venero todos aqueles que tecem a própria teia. Detesto o longo discurso dos que buscam perguntas às respotas, mas venero a sutil obviedade dos que encontram respostas às perguntas. Detesto a complexidade aparente das grandes coisas, mas venero a simplicidade presente nas pequenas coisas. Detesto o engodo dos peseudo-intelectuais, mas venero a falsa cúpula dos acadêmicos imortais. Detesto tudo aquilo que me enfraquece em dias normais, mas venero perder forças em atos banais. Detesto o putrefar da comida na encruzilhada, mas venero o sobrevoar da mosca envenenada. Detesto a cartilha do rigor diplomático, mas venero o manifesto em prol do lunático. Detesto a contrapartida dos chefes de estado, mas venero o ímpeto do filho bastardo. Detesto o bajular rebuscado do galanteador, mas venero o beijar roubado do namorador. Detesto os documentos que atestam minha saúde mental, mas venero a feroz eloquência do surrealismo letal. Detesto saber que nada sei porque tudo busco, mas venero lamber o prato que a cada dia cuspo.

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